domingo, 15 de novembro de 2009

Amor e arte são palavras que não servem para nada

- Amor e arte são palavras que não servem para nada.
Ouvi essa frase na mesa de um boteco dentro da vila residencial na Ilha do Fundão. Lembro-me perfeitamente, era uma terça-feira fria.
O sujeito que disse isso – homem muito interessante, diga-se de passagem – justificou – embora, na minha opinião não precisasse – a frase com argumentos plausíveis. Afinal, cada um sente, vê, entende, se relaciona com tais palavras de maneiras diferentes, opostas, paradoxais, etc e tal. Sendo assim, de nada ou para nada as mesmas serviriam. Emudeci. Senti-me à vontade com meu próprio silêncio. Que comentário tecer diante da frase? Não possuía agulha, linha ou fios minimamente coerentes com o que penso. Mas o que penso mesmo sobre isso?
E lá se foram dias e dias...acordava pensando na porra da frase, dentro do metrô a mesma voltava: “próxima estação ‘amor e arte são palavras que não servem para nada”, cortando o bife lá estava, desenhada no prato como a “Medusa” de Vick Muniz. Ouvia e via a frase em plástica, sons e tons em praticamente tudo. Fiquei quase obsessiva.
Polêmica e discutível, claro, foi uma espécie de enxurrada reflexiva, o incômodo daquela calcinha apertada, a angústia que só o amor ou a arte proporcionam. Uma tisunami em quem se assume humana.
Creio que nunca pensei sobre o que é o amor, o que seria amar, muito menos para que serviriam. A arte é questão relativa e como diria uma amiga: “relativizando, tudo é viável”, e teorizar sobre as duas...xiii...tarefa inútil e por isso mesmo latente e viva.
Vamos por partes:
O Amor
É óbvio que serve para muitas coisas, uma infinidades delas, eu diria. Ou talvez não “sirva” para nada, mas sem ele – palavra infame no mundo high tech – sinceramente, eu já teria cortado os pulsos faz tempo. O amor não presta serviço(s) como um criado, não é essa a (i)lógica da coisa, nós (eu) é que nos servimos dele – um banquete!
Como poderia eu justificar essa merda de existência sem amor? Daí, entra Sartre e eu afirmo: sim, meu caro, essa é a minha opção, minha escolha, o senhor não fez a sua? Deixe-me em paz para a “condenação da liberdade”. O amor é a expressão mais honesta de liberdade, é a asa que me conduz diariamente até a cozinha todas as manhãs sem ao menos me perguntar se ela existe por que não a vejo, não a sinto. Ela está aqui, ele está aqui, mansinho, um gatinho cochilando que às vezes levanta as orelhas só para identificar o ruído exterior, voltando a moleza logo depois. Não reflito sobre a sua existência porque é natural como respirar e sem ele eu também não poderia viver. Não me refiro a esse amor burguês-cristão-ocidental, mas ao amor que só pode ser sentido, sem teorias.
Lembro-me agora do médico com a fatídica notícia no hospital:
- Kátia, a primeira cirurgia de drenagem não deu muito certo, seu quadro clínico não evoluiu, faremos outra cirurgia, vamos RETIRAR seu rim esquerdo.
Tomando soro pela jugular, pálida, magérrima, cabelos desgrenhados, resumindo: horripilantemente fudida, iniciei um choro com todas as forças que me restavam.
- Meu rim, porra, ele vai retirar meu rim, que merda!
Até então nem sabia que eu tinha rins. Quero dizer, saber eu sabia, todos sabemos, mas nunca havia atentado para sua existência.
Nunca pensei sobre o amor que me carrega, em suas patas, inconscientemente agarrada em seus pelôs sigo para não cair no abismo infinito que é sua ausência.
A frase naquela terça-feira fria foi o médico de anos atrás e a diferença é que prossigo sem o rim esquerdo, mas ‘sem amor eu nada seria’. A frase não me retirou as asas, não matou meu gatinho, apenas me fez pensar sobre. Não há conclusões viáveis sobre o intangível, continuarei na inesgotável amação. De vez em quando certas manifestações – uma melodia, uma ideia, um poema, uma pessoa - se encarregarão de alimentar o felino, ele acordará espreguiçando gostoso, gostoso, poderá brincar durante horas, dias, meses, anos, in-fi-ni-ta-men-te ou retornará ao sossego, sem perder o hábito de levantar as orelhas para a identificação de praxe...quem vai saber? E minha asa livremente me levando até a cozinha, ordinariamente, todas as manhãs.
A Arte
Para início de conversa arte é a completude transcendental obtida através da apreciação. A apreciação nos faz virar os olhos para dentro podendo consumir rapidamente as vísceras, o sangue ou somente fotografar o batimento cardíaco e que nos lança ao espaço, fora do ‘eu’.
Talvez possa apreciar esteticamente ou não, mas tem que me incomodar, ora! A verdadeira arte incomoda e desprende o espírito.
Significa muito para mim, não só as obras em si, mas a palavra, seu som, toda a articulação muscular necessária para pronunciá-la e seus inúmeros sentidos. A arte é sonho, é a beleza do inconsciente humano em manifestação, é a catarse que traz à tona o sentimento, seja ele qual for, é a expressão mais fidedigna do prolongamento existencial, da liberdade – assim como o amor.
Novamente volta a questão: serve para alguma coisa?
Serve para nos imortalizar enquanto indivíduos – não consigo pensar em nada mais poético do que o próprio pensamento.
A arte explica, confundindo,ao mundo o que é o ser humano e toda a suave complexidade da vida. Está lá, basta ler, ver, ouvir, sentir.. Os desavisados a olham sem vê-la, os arrogantes teorizam sobre ela, a descrevem, a definem como coisa em si ou as colocam no baú do anti, do não, a renegam para mais tarde, para outra geração. Então as crias dos mesmos dizem: “Eles, se enganaram...isso sim é arte!
Outros sequer pensam em sua existência, mas não percebem que seriam o não-ser sem ela.
Sem mais delongas:
A arte me salvou, me salva e me salvará.
Amém.